Os impactos dos dados abertos no desenvolvimento econômico e social

Por Larriza Thurler 

O movimento de open data pode contribuir para a mudança cultural, reforma institucional e desenvolvimento internacional, afirma Fiona Smith, gerente de Desenvolvimento Internacional do ODI em Londres. Ela é responsável por assessorar países emergentes e em desenvolvimento a usar dados abertos de modo a contribuir com o desenvolvimento econômico e social. Batemos um papo com Fiona, que compartilhou algumas experiências bem-sucedidas de open data na promoção da transparência e no engajamento de atores para a solução de problemas coletivos.

Vemos muitos casos de sucesso de dados abertos em países desenvolvidos. Você poderia nos contar sobre experiências em países em desenvolvimento, mais próximas da realidade do Brasil?

Por meio do meu trabalho com políticas públicas, tenho contato com muitas pessoas em todo o mundo e os exemplos mais marcantes vêm de lugares inesperados, que não ganham destaque na imprensa. Um deles é Burkina Faso, na África, que vem apresentando resultados efetivos com open data. Eles desenvolveram um portal de educação com informações para pais e tomadores de decisão sobre as condições e a qualidade das escolas em todo o país. Foi a primeira vez que os dados foram abertos e publicados, pois antes eram restritos apenas ao Ministério da Educação. Outras pessoas que trabalham com educação puderam assim ter acesso e começar a demandar os dados que queriam. Além disso, muitos aplicativos foram desenvolvidos e os pais tiveram mais facilidade para decidir para onde mandar seus filhos e o governo onde investir recursos.

O outro projeto deles que me deixa muito animada é o Open Election Data, referente aos dados abertos das eleições. Há alguns anos, o líder que estava há quase 30 anos no poder foi retirado após uma manifestação popular. Um governo interino foi estabelecido, realmente comprometido com a transparência e em garantir a paz no período de instabilidade. Eles criaram uma ferramenta de open data para construir a confiança entre cidadãos e governantes nas primeiras eleições após o episódio. Para isso acontecer foi preciso uma parceria entre a equipe técnica do governo, que tinha as habilidades para limpar os dados e colocá-los no formato certo, e a comissão eleitoral, que é uma organização independente que conta e verifica todos os votos. Ao mesmo tempo, eles trabalharam com desenvolvedores que puderam construir uma interface (API) para publicar em um site, em tempo quase real, os dados na medida em que os votos iam sendo coletados e verificados pela comissão. Cidadãos e jornalistas puderam acompanhar os acontecimentos e os resultados das eleições foram divulgados muito rapidamente, 24 horas após o encerramento da votação. Foi uma transição suave de poder e limitou o período de incertezas quando podem acontecer casos de violência.

Na Colômbia, foi desenvolvido um grande projeto para investigar como mudanças climáticas afetam as plantações, em colaboração com o Ministério da Agricultura, um instituto de pesquisa agrícola e a associação de produtores rurais. Eles combinaram dados dos três atores para criar um modelo de previsão bem preciso, a fim de tomar medidas para o ano seguinte. A ação conseguiu evitar US$ 3.6 milhões em perdas.

Fale um pouco mais sobre como o movimento de open data tem o potencial de mudar o modo como trabalhamos e compartilhamos informações com outros.  

A cultura de governos, de um modo geral, é muito fechada, eles não compartilham informações entre si. Mas com iniciativas de open data as informações ficam disponíveis não apenas para outros departamentos, mas para todos acessarem e isso significa um convite para feedback. É um pouco assustador, pois pode expor alguns desafios e problemas. É normal ter algumas resistências, mas ao mesmo tempo os dados abertos têm um potencial para beneficiar governos em diversos modos. Um exemplo básico é na melhoria da eficiência e no corte de custos. Simplesmente ao compartilhar informações sobre orçamentos dos departamentos pode-se identificar onde é possível cortar gastos e ter mais colaboração.

No Reino Unido, quando o governo publicou informações sobre o custo de remédios foi descoberto que ao substituir um medicamento por um genérico a agência de saúde economizaria uma grande quantia de dinheiro. Além disso, dados abertos podem mudar a relação do governo com os cidadãos, pois ao abrirem o processo de tomada de decisão e darem mais evidências, são criadas oportunidades para os cidadãos demandarem melhorias. Para isso funcionar, é preciso feedback. No nível municipal funciona muito bem, pois as decisões impactam no dia a dia dos cidadãos.

Saiba mais

Para ter mais informações sobre open data em Burkina Faso, ouça o podcast (em inglês) com Malick Tapsoba, gerente-adjunto da Burkina Faso Open Data Initiative, e assista ao vídeo (em inglês) sobre o portal de educação.

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