Open Data Day

Por Luciana Sodré – Coordenadora do ODI Rio / Consultora e pesquisadora do Crie (Centro de Referência em Inteligência Empresarial da Coppe/UFRJ)

Hoje, 4 de março de 2017, estamos comemorando o Open Data Day[1]. Nesse dia, pessoas no mundo inteiro se mobilizam para celebrar a cultura dos dados abertos!

Gostaria de aproveitar esse dia, em que mentes estão abertas e sintonizadas no assunto, para colocar em debate uma ideia bem simples, embora polêmica, que pode contribuir para alavancar a adesão de pessoas comuns à cultura open data: a doação pessoal de dados (Não confundir com doação de dados pessoais!).

Antes de entrar na polêmica:

O que cultura open data?

Primeiro é importante deixar claro que dados abertos excluem explicitamente dados pessoais e outros dados sensíveis! Quem não está familiarizado com essa restrição deve se informar sobre isso para que a apreensão desse texto não fique comprometida.

A cultura open data é um conjunto de manifestações baseadas na convicção de que quanto mais dados estiverem acessíveis maior será a capacidade de inovação das pessoas! Essas manifestações ocorrem em três frentes: compartilhamento de dados em formato open, uso de dados abertos e criação das condições para que as duas manifestações anteriores aconteçam.

Usar dados abertos é tão importante quanto compartilhar

Cada vez que alguém cria valor a partir de dados abertos está passando a mensagem de que aquele dataset é importante e por isso precisa ser confiável! Isso quer dizer que, o tempo todo, esse dataset precisa estar íntegro, atualizado, acessível e livre de ameaças à privacidade. O provedor daquele dataset não tem mais como recuar. A demanda constante pelos dados gera um círculo virtuoso: exige a qualidade que por sua vez atrairá mais demanda. E assim continua eternamente. Do ponto de vista da cultura open data, apenas se apropriar de um valor gerado por dados abertos também passa a mesma mensagem! Um cidadão que usa o Waze ou o Google Maps diariamente está, por exemplo, usando dados abertos e incentivando a manutenção da qualidade e confiabilidade dos datasets de geoposicionamento por satélite. O volume de dinheiro investido em plataformas de disponibilização de dados de GPS, não se justificaria não fosse o gigantesco mercado que se formou a partir do uso desses dados.

Infraestrutura tecnológica e políticas públicas

Vamos usar o gancho da última frase para falar da parte da cultura open data que cria as condições para que o compartilhamento e o uso possam acontecer. Plataformas em nuvem são tecnologias sofisticadas e exigem muita responsabilidade do gestor, o que significa que são extremamente dispendiosas. É preciso que estejam inseridas em um ecossistema de stakeholders para que possam ser viáveis. Isso nos leva a perceber que as condições para compartilhamento e uso de dados abertos é mais que plataformas em nuvem: é preciso políticas públicas que incentivem a proliferação e sustentabilidade das infraestruturas tecnológicas de compartilhamento de dados. Investimento em ciência e tecnologia, capacitação, regulamentação adequada, estímulo ao empreendedorismo entre outras ações, fazem parte das manifestações intangíveis de criação de condições da cultura open data.

Open por default

A terceira frente de manifestação da cultura open data é o compartilhamento de dados. Muitos dados gerados diariamente são open por default. Isso significa dizer que disponibilizá-los independe da vontade do controlador do dataset. Os dados open por default são aqueles gerados pela administração pública. A ideia é antiga, mas ficou bem popular a partir de 2006 quando o jornal britânico The Guardian lançou a campanha Free our Data, exigindo que os dados coletados pelo governo, ou por outros agentes em seu nome, fossem disponibilizados aos cidadãos. Isso já é praticamente uma batalha ganha, ao menos em países democráticos. O que varia de país para país é o grau de acessibilidade desses dados. Enquanto uns possuem plataformas excelentes com dados em formato que pode ser lido por máquinas (machine readable) e com alto padrão de confiabilidade, outros ainda fazem a disponibilização de modo arcaico, com processo burocrático de solicitação dos dados e muitas vezes com entrega em suporte físico (papel ou CD). As leis de acesso à informação, embora nem sempre definam o processo como essa informação será acessada, funcionam como uma catraca que impulsiona em direção a processos mais eficientes. Isso porque, conforme aumenta a demanda por esses dados, o custo para cumprir a lei de modo manual acaba justificando o investimento em plataformas digitais.

Open por adesão

Tem sido cada vez mais comum o compartilhamento de dados em formato open por controladores que não têm nenhuma obrigação de fazê-lo. Isso pode acontecer por diversos motivos, mas os mais comuns são: tentativa de diluir o custo da manutenção do dataset com outros stakeholders, identificação de um modelo de negócio que pague pelo acesso e uso dos dados ou apenas pela vontade de contribuir com a formação de um conjunto crítico de dados. Uma coisa recomendada para quem deseja abrir dados por adesão, é procurar fazer a certificação do conjunto de dados. O objetivo é associar esses dados a uma classificação padrão que dirá a possíveis interessados quais são as condições de qualidade do dataset: qual a periodicidade de publicação, acuracidade, garantia de perpetuação do dataset, formato, etc.

Seja um doador de dados

Por fim, vamos levar esse texto para além da evangelização para o assunto, afinal o Open Data Day é um dia aberto a novas ideias e discussões.

Vamos imaginar que em breve possa existir uma subcategoria de compartilhamento de dados por adesão. A ideia é simples:

Atualmente todas as empresas lucrativas coletam e guardam dados dos seus clientes. A lei diz que, como ela arca com os custos para fazer tudo isso, ela tem o direito de usar esses dados desde que seja para melhorar seus produtos e serviços e não afetem a privacidade dos clientes. Diz também que cada cliente tem direito a acessar e usar os dados que as empresas coletam que dizem respeito a ele. O que impede então que esse cliente delegue o seu direito para terceiros? De outro modo, o que impede que esse cliente autorize, ou melhor, ordene a empresa que coletou os seus dados, que os disponibilize de modo anonimizado para que outras pessoas tenham acesso e possam gerar valor com eles? Se isso for verdadeiro e puder ser feito com segurança, o que impede que uma nova versão da campanha Free our Data, dessa vez visando instituições privadas, alcance um grande êxito em poucos anos? Na verdade, a campanha seria mais do tipo “Seja doador de dados” porque o público alvo seria cada pessoa que deveria se convencer a solicitar a disponibilização dos dados coletados sobre ela.

A ideia é para ser criticada, debatida e amadurecida. Sabemos que existem muitos obstáculos a serem vencidos, mas o conceito é perfeitamente factível. Uma nova dimensão de dados abertos pode ser colocada à disposição da sociedade. Pense nas possibilidades.

[1] A data é móvel. Saiba mais aqui: http://opendataday.org/

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